Análise: Trump tenta impor nova ordem global com ataques a aliados e rivais
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As medidas controversas tomadas em série pelo presidente Donald Trump neste início de ano mostram que ele está buscando impor, de forma unilateral, uma nova ordem global baseada no uso da força e no desrespeito explícito ao sistema jurídico internacional.
A lista de suas ações é longa e afeta tanto rivais como aliados, além de, em muitos casos, ignorar completamente as regras e leis estabelecidas.
Determinou que os seus militares atacassem um país soberano, sem nenhuma autorização do Congresso americano ou do Conselho de Segurança da ONU;
Conseguiu capturar e depor o líder desse país, o ditador Nicolás Maduro, numa operação que matou dezenas de pessoas na Venezuela, segundo o governo venezuelano;
Fez ameaças explícitas de uso da força contra outros países e chefes de Estado, como México, Colômbia e Cuba;
Anunciou que iria se apoderar dos recursos naturais de uma nação independente, o petróleo da Venezuela;
Prometeu anexar a Groenlândia, um território administrado pela aliada Dinamarca, o que poderia levar ao fim da aliança militar ocidental Otan e a uma crise com a União Europeia;
Determinou a apreensão de mais petroleiros, inclusive um que navegava com bandeira da Rússia, aumentando tensões com a potência nuclear;
Anunciou um expressivo aumento de 50% no já robusto orçamento militar dos Estados Unidos;
Retirou o seu país de mais de 60 organizações internacionais.
Uma sequência tão extraordinária de atos não acontece por acaso.
Trump tem conseguido avançar com relativamente facilidade nessa agenda porque se aproveita de uma combinação rara de fragilidades institucionais, tanto dentro dos Estados Unidos quanto no sistema internacional.
No plano interno, o presidente governa praticamente sem freios.
A oposição democrata está desorganizada, sem liderança clara e incapaz de impor custos políticos relevantes às decisões do Executivo.
Ao mesmo tempo, Trump mantém controle firme sobre o Partido Republicano, que domina as duas casas do Congresso, esvaziando o papel fiscalizador do Legislativo e reduzindo o debate público sobre temas centrais de política externa e segurança.
A esse cenário soma-se uma Suprema Corte com maioria conservadora, pouco inclinada a confrontar o presidente.
O resultado é uma concentração de poder incomum, especialmente para os padrões da democracia americana, baseada no princípio de “checks and balances”.
Esse controle da política interna acaba permitindo que Trump tome decisões de enorme impacto internacional sem autorização do Congresso e sem nenhuma resistência institucional efetiva.
Fora dos Estados Unidos, o contexto também é muito favorável a uma postura mais agressiva de seu governo.
A ONU atravessa o momento de maior fragilidade desde sua criação, sem capacidade de reação, como se viu no debate inconclusivo no Conselho de Segurança sobre os ataques contra a Venezuela.
O órgão máximo do sistema de governança internacional está paralisado por vetos cruzados e rivalidades, o que abre espaço para ações unilaterais das superpotências.
Além disso, divisões profundas entre países e blocos regionais dificultam qualquer articulação consistente para conter iniciativas mais radicais de Washington.
Foi o que se viu, por exemplo, nos casos da Venezuela e da Groenlândia.
No primeiro episódio, os próprios países da América Latina (possíveis alvos de ações similares no futuro) se dividiram em linhas ideológicas no apoio ou crítica aos americanos. No segundo, a União Europeia só conseguiu meras cinco assinaturas em defesa da Dinamarca, um país membro ameaçado por Washington.
Isoladamente, cada uma das medidas adotadas já representaria um abalo relevante na ordem global.
Juntas, deixam mais claro do que nunca que o objetivo da administração Trump é mesmo a substituição do multilateralismo por uma lógica de força, na qual a soberania é plena para os países mais fortes e relativa para os demais.
Tudo isso também cria precedentes muito perigosos.
Ao agir unilateralmente e contra as regras internacionais, a Casa Branca abre espaço e quase estimula as outras grandes potências, como Rússia e China, a fazerem o mesmo em suas áreas de influência.
Moscou e Pequim criticaram os americanos pelos eventos na Venezuela, mas eles próprios já defendem abertamente uma lógica de dividir o mundo em esferas de influência.
Não vai demorar muito para usarem os mesmos argumentos para tentar justificar ações semelhantes.
O resultado de tudo isso é um mundo muito mais instável e mais perigoso, onde os conflitos tendem a aumentar muito.
Fonte: CNN

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